– Com a minha idade, eu deveria parar de fumar. 

Foi o que meu pai disse alguns meses antes do ano pandêmico, enquanto baforava palavras esfumaçadas. 

Nesse instante, fui tragada por memórias da minha infância mergulhadas em névoa densa e perfumadas pela pungente nicotina. Lembrei-me como suas exaladas se misturavam ao vapor quente da xícara de café, distorcendo-lhe a face. Seus contornos se desfaziam diante de mim como se a fumaça o engolisse, arrastando sua presença para outro plano. 

Aos sete anos de idade, meus avós o enviaram para um internato, onde ele viveu envolto na bruma dos defumadores das missas católicas. Crescemos, ambos, numa espécie de sfumato.

Eu também tinha meus contornos mal delineados e dissolvidos entre as árvores, esfumada pela neblina baixa dos 1.600 metros de altitude, no interior do Brasil, que se movia rasteira, camuflando a paisagem condensada pelos rios e florestas tropicais. Nestas regiões montanhosas, quando a noite encontra a manhã, o ar frio e pesado desce e se condensa, até que o sol aqueça o suficiente para dissipá-lo. A bruma me envolvia como uma coberta macia, transformando cada passo em um rastro efêmero, que exalava um cheiro úmido de terra e som de galhos torcidos. A visão reduzida permitia que minha imaginação desenhasse o caminho esmaecido. Eu passava horas no frio, soprando a neblina e pisando em vão.

Nessa época, Brígida Baltar ainda não havia coletado orvalho e neblina. Refiro-me à foto-ação A Coleta da Neblina #24 (1996–1999), uma série de fotografias que registra a artista brasileira em sua performática armazenagem de tais invisibilidades úmidas em garrafas de vidro. Ali, onde a vida passa e brota invisível nesse vasto campo de tons pastéis, Brígida Baltar poeticamente capturou algo volátil: esse ar que nos escapa a cada expiração. Coletora íntima do fugaz, Baltar armazenou a densa umidade da mata, capaz de ocultar qualquer traço da presença humana. A floresta se esconde e também sabe ocultar.

Quanto mais distante do mar e mais alta está a floresta, mais ela suspende as árvores nos picos e torna o ar raro. Lembro-me de que, quando viajávamos de carro e subíamos a montanha, a vertigem tomava o corpo, que esquecia o ar fora de si e se invertia, cheio de espaço negativo. Lentamente, o gesto pausado esvaziava a paisagem, e eu adormecia no banco de trás.

A coleta da neblina, 2002; fotografia; 39,7 x 58,5 cm; Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio (parte deobra formada por 4 fotografias)
A coleta da neblina, 2002; fotografia; 39,7 x 58,5 cm; Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio (parte de obra formada por 4 fotografias)

Em 29 de maio de 1983, meu avô morava ao nível do mar; mesmo assim, seu pulmão sucumbiu. Naquela manhã, ele me contou um segredo: – Quando o ar te faltar, não tente aprisioná-lo. Estique o corpo, abra os pulmões. Encare o vazio. Encare o medo. Solte tudo. O ar não pertence a você, ele não pertence a ninguém, nunca pertenceu. A vida é um sopro que não pode ser capturado.

Acho que meu avô não conheceu Brígida Baltar; talvez ela pudesse ter emprestado a ele um de seus vidrinhos de captura.

***

Eu migrei, como certos animais fazem para fugir do frio; desci as montanhas e encalhei na costa carioca, onde as ondas salgadas espantam a névoa, e a floresta, sem vergonha, ostenta cores vibrantes.

Era inverno do ano pandêmico, e fui acordada em apneia às 3h30 da manhã, desorientada e com baixa atividade cerebral. Diz-se, segundo a teoria do ciclo circadiano, que dita o ritmo biológico natural e regulador dos nossos processos fisiológicos, que este é o horário dos pulmões no auge da sua atividade energética, o que significa que o corpo está focado na respiração, na purificação do sangue e na distribuição de oxigênio pelo organismo. Nesse sobressalto, imaginei quantas outras atmosferas existem em outros planetas, tantas outras misturas e nuvens de gás que precederam nosso sistema solar até que ela pudesse ser mantida e fixada pela gravidade.

No banco de trás, nas viagens de carro pelas montanhas, eu gostava de abrir a janela e observar as nuvens e as formas que elas tomavam, contemplando suas dissoluções com o vento no rosto. Ao mesmo tempo refletia quanto esforço faz a natureza para girar poeira cósmica gaseificada e produzir fluxos de vidas. Queria apenas respirar livremente, sem o peso dos boletos soterrando o peito. Em vez disso, liguei o computador, paguei as contas e salvei os dados nas clouds, falsamente protegida pelo ar-condicionado. Como se o ar a mim fosse negado em um decreto silencioso, desliguei-me de tudo: fechei o Windows e abri a janela do quarto, mas nenhum vento, nenhum apelo, nenhuma folha balançou sua prece na árvore deitada na janela. No imperativo da intimidade do lar, o ar já havia me esquecido.

Leblon, Rio de Janeiro, 2024, Ana Andreiolo

– Como assim, está morto? – indaguei ao ler a mensagem no celular, pela manhã. Vesti-me e dirigi ao hospital no bairro do Humaitá, no Rio de Janeiro.

O cheiro era forte, de éter impregnando a memória do corpo morto, arroxeado sobre a maca metálica, aguardando-me, viva, para seu reconhecimento.

Causa mortis: insuficiência respiratória aguda por asfixia.

No caminho de casa, decidi não ser mais uma fumante passiva. Comprei um maço de cigarros, mesmo sem fumar, acendi apenas um e deixei queimar como incenso no cinzeiro.

O tabaco é um portal. Para os xamãs quechua, o tabaco é o pai de todas as plantas; por isso, não se deveria fazer fumaça com ele levianamente: ele requisita o ritual. Cada planta tem sua psique, convoca a consciência ancestral e invoca os espíritos — assim como meu pai não sabia que fazia todos os dias na mesa do café da manhã, com sua xícara e cinzeiro vaporosos.

A fumaça do míri carrega grande poder espiritual, sendo usada para se conectar aos espíritos da floresta, os xapiri. Ela carrega a substância dos sonhos, a yãkoana, permitindo ver além da realidade visível e atravessar o mundo dos espíritos, navegando entre dimensões.

Quando inspiramos, nos tornamos todas as outras coisas; quando expiramos, desaparecemos no todo, feito a neblina que encobre a floresta.

Ao defumar, nos tornamos transparentes e disformes. 

Ao inalar, somos absorvidos por aspiração.

Ao vaporizar, aplica-se pressão até que, a alternância de temperatura nos transforme em gás.

A fumaça desvia a luz, quebrando a escuridão.

O ar que respiramos é espiritual.

Eu morava sozinha, em isolamento social, tentando me comunicar. Assim como a escritora brasileira Hilda Hilst pedia contato, eu também sabia que, a partir dali, jamais fumaria um cachimbo ou charuto sem companhia. Hilst viveu um exílio autoimposto em sua chácara, a Casa do Sol, onde mantinha uma estação de radiofonia em que aplicava os métodos de transcomunicação para falar com mortos e espíritos. Isolada, entre um cigarro e outro, desenhou pictografias de seres híbridos surreais, gravando muitas vozes do além em fitas magnéticas, capturando sussurros de ar movente. 

– Vocês, mortos, vivem? – era a pergunta que norteava Hilda Hilst.

Nessa travessia do visível, relembro como adentrar a neblina dissolve os contornos em direção ao invisível e cria um espaço íntimo repleto de ar e outras sutilezas imateriais.

Curitiba, 2016, Ana Andreiolo

Ainda com os olhos arenosos de sono e defumação, abri o celular, e os algoritmos me enviaram a seguinte notícia: “Após a morte, o cérebro humano vive por mais 7 minutos, apenas com as melhores memórias“.

Caminhei até o banheiro, fitei o Lorenzetti virado na chave um e girei a torneira. A paisagem de azulejos começou a nevoar, e mal se via, à frente, o espelho embaçado — mas quais seriam as minhas melhores memórias?

A primeira gota d’água que escorreu pelo ombro, disparou a memória involuntária. Na cena onírica, perdi o guarda-chuva na ventania e corri para me abrigar por uma porta de madeira, que dava para um corredor estreito. Segui emparelhada, entre as paredes chapiscadas pelo cheiro de mofo, até que uma treliça de mogno irrompeu meu caminho. Espreitei através das frestas e o avistei em sua veste preferida: camisa social azul clara, com bolso e mangas curtas. Foi a primeira vez que o reencontrei, sem cheiro de éter nem de flores.

Os Yanomami dizem que, para saber verdadeiramente sobre uma pessoa, é preciso se esforçar para sonhar com ela e guardar a imagem dela em si. Nas montanhas da minha infância, eu arrastava linhas com os pés para encontrar os xapiri, descobrindo a névoa para revelar o terreno e achar o caminho, respirando uma atmosfera carregada de presenças invisíveis.

Conrado, Miguel Pereira, 2016, Ana Andreiolo

Despertei na madrugada de 23 de agosto de 2024 com um calor que subia pelo pescoço e cobria minhas orelhas. Pude sentir meus braços em chamas, como se houvesse brasas sobre minha pele. A estratégia de desaparição incinerava e ocultava corpos em massa. Pensei que, se Hilda Hilst estivesse ali, ela teria gravado o grito do fogo, e Brígida Baltar teria capturado as partículas dançantes. A floresta fala conosco quando está ferida, ela nos conta um segredo: – Quando o ar faltar, não tente capturá-lo mais e mais. A vida é um sopro.

Respirava a dificuldade da fumaça espessa encobrindo o céu da boca; e pela janela, a fuligem dançava e desintegrava. 

Nas paisagens esfumadas, como nas zonas de exceção ou de neblina, tudo desaparece, e os passos suaves caminham para lugar nenhum: arrastar as solas dos pés e levantar a poeira do chão é um elogio ao nevoeiro.

Alto da Boa Vista, 2020, Paula Fabris
Alto da Boa Vista, 2020, Paula Fabris

Ana Andreiolo é mestre em artes visuais pelo Instituto de Artes da UERJ. Sua proposta de prática e pesquisa artística desdobra experiências efêmeras, fantasmagorias, fabulações e fenômenos enigmáticos, desvelando possíveis índices de mundos invisíveis e ocultados. Site: www.anaandreiolo.com/visualarts

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